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Ponto de Fuga

Ponto de Fuga

Aqui há boa gente

Olhão, Algarve

03.04.23 | Miguel Frazão

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Já passava da meia noite quando decidi que iria acordar seis horas depois para apanhar o primeiro barco que saía de Olhão em direção à Ilha da Culatra. Queria ver o nascer do sol. Pelas minhas contas, estaria provavelmente no barco a essa hora. Embarquei ainda de noite na companhia dos pescadores que veem na maré vazia uma oportunidade de averiguar se há marisco nos viveiros.

O sol nasceu, mas a aldeia da Culatra mantinha-se adormecida. Talvez por ter menos de mil habitantes a lá viver. Cruzei-me com um ou outro pescador que já se aventurava a desemaranhar as redes para se fazer ao mar. Ou melhor, à ria. No meu caso fiz-me ao mar. É lá que se apanha conquilha. Passei a manhã entre a Culatra, Hangares e o Farol. Pertencem ao mesmo troço de areia, mas são aldeias diferentes. Parecem-me ser autónomas em relação à cidade de Olhão. Têm escola, infantário, igreja, supermercado e centro de ação social. No entanto, a forma como se vive essa autonomia leva-me a sentir que a distância entre a ilha e a cidade pareça maior do que distância física. Veem-se entrar no barco pessoas cheias de sacos e malas, à semelhança daqueles que passam a semana nas grandes cidades e ao fim de semana regressam às origens. A diferença está na distância. Apenas 5 km separam a Culatra de Olhão.

Estou agora em Olhão, sentado no centro do terraço quadrado do AL Casa Grande, não fosse a região apelidada de cidade cubista. À primeira vista as casas parecem ter sido construídas pelos árabes. Mas não. Trata-se de uma obra de europeus, influenciada pela elevada emigração e pelo tráfego comercial que no passado ligavam Olhão a Marrocos. O sol está a pôr-se e curiosamente não sinto o entusiasmo que tinha de manhã cedo.

Atraso a escrita destas palavras como se o começar da noite fosse ser adiado por minha causa. Penso nas três pessoas que mais me marcaram este fim de semana. A Cristina e o Alexandre acolheram-me no seu espaço. Com o André, a história foi outra. Dirigia-me a pé para a Quinta do Marim já há mais de uma hora. Não que o caminho fosse assim tão longo. Eu é que o tornei demorado. Percorria a Estrada Nacional 125. Estava calor. Contornei a rotunda e uns metros à frente virei à direita. À minha frente, uma placa refere: “Privado, não entrar”.

Antes sequer de pensar voltar para trás chegou uma carrinha, de onde saiu uma mãe e um bebé. Perguntei onde era a entrada. Já a tinha passado há bastante tempo. Agradeci. Voltei para trás. Passado uns segundos ouve-se uma buzina. O André acenava-me. Ofereceu-me boleia. Assim que ele me faz a oferta soa-me na cabeça a frase que tantos pais repetem aos filhos quando são pequenos. “Não aceites nada de estranhos”. Confesso que não demorei muito a aceitar a sua boleia. Não que estivesse desesperado. Apenas porque com o passar do tempo tendemos a aproximarmo-nos de um equilíbrio que em miúdos não conseguimos alcançar.      

Em Olhão há boa gente. Não só a Cristina, o Alexandre e o André, mas também a Michelle, com quem muito consegui falar entre umas palavras em inglês, francês e espanhol; o rececionista da Quinta do Marim que me fez um desconto de amigo; a senhora que me deixou passar à frente no supermercado e até o senhor que me expulsou de uma espreguiçadeira que pensei ser pública quando pertencia a um concessionário.

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