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Ponto de Fuga

Ponto de Fuga

Insónias de Luxo

07.09.22 | Miguel Frazão

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O despertador toca sensivelmente três horas depois de o ter acionado. É madrugada. Acordo a meio de um ciclo de sono. Não houve tempo para que as ramelas se alojassem nos cantos dos olhos. Arranjei-me mais depressa do que o habitual. Entro no carro e sigo para o Aeroporto de Lisboa. As estradas estão vazias. Cruzo-me com aqueles que regressam da noite. Estamos em dias diferentes. Eu já vou em quarta-feira. À minha esquerda surge a faculdade que frequento. Bocejo. À semelhança do que acontece na primeira hora de aulas. Tenho dormido pouco. Falta de organização. Chego ao meu destino. Saio do carro e sinto a tontura de quando acordamos e nos levantamos de rompante. Avizinham-se 24 horas de viagem. Em breve estarei no Dubai. A meio caminho, uma paragem em Amesterdão e outra na Arábia Saudita. Tentarei descansar.

Há dias comprei uma revista de viagens. Faço-o de vez em quando. Valorizo o papel. Toco com as minhas próprias mãos nas águas cristalinas nas quais posso nunca vir a mergulhar e nos hotéis de luxo em cujas camas talvez nem sequer chegue a repor as horas de sono perdidas. Passo as primeiras páginas. Leio uma reportagem sobre o Sri Lanka. A beleza das praias e paisagens verdejantes contrasta com a tristeza que as envolve. A falta de eletricidade não permite manter o peixe fresco e as escolas tiveram de adiar os exames por escassez de papel. As cirurgias não urgentes foram suspensas. Problemas com os anestésicos.

Avanço na minha leitura. Deparo-me com uma notícia que já vira antes, mas sem dar importância. Dois irmãos criaram um hotel de zero estrelas. Uma cama de casal sobre uma plataforma, acompanhada por duas mesas de cabeceira e candeeiros nas laterais. Não há paredes, nem portas. Instalaram três suites, se é que cumprem os requisitos para lhes podermos atribuir esse nome, em zonas de campo de regiões do interior da Suíça. Cenários idílicos, dizem. Há meses construíram uma nova suíte. Num local mais arrojado. Na berma da estrada, junto a uma bomba de gasolina. Exposta ao caos da cidade.

Admiro a criatividade. O conceito também. Os irmãos Frank e Patrick Riklin querem que os hóspedes reflitam sobre os problemas do mundo, nomeadamente a guerra e as alterações climáticas. “Agora não é hora de dormir, temos de reagir”, referem à Reuters. “Se continuarmos na direção em que vamos hoje, pode haver mais lugares anti-idílicos do que idílicos”. O barulho das pessoas, dos veículos e a falta de privacidade marcam a estadia de quem se aventurar nesta experiência. Uma noite de insónias ultrapassa os 300 euros. Produzirá os efeitos desejados?

Estou agora sentado no cadeirão que em tempos foi do meu avô. Guardo a revista. Ligo a televisão. Está a dar o noticiário. Em rodapé pode ler-se “Bombardeamento em Dnipropetrovsk: Ataque a estação de comboios provocou quinze mortos”. A esta notícia segue-se uma outra. “Incêndio em Vila Real: Arderam cerca de seis mil hectares em mais de três dias”.

Os erros do ser humano tratam de construir os cenários anti-idílicos. Talvez não seja necessário reproduzi-los artificialmente. O sono também é importante. Os músculos relaxam. A pressão arterial e a frequência cardíaca diminuem. O cérebro assimila mais facilmente a informação que recebemos durante o dia. Refletimos melhor sobre o que nos rodeia e agimos mais depressa. Pelo menos eu.